Vendendo a alma ao Diabo

por Adriano Costa

 

Hoje, há muitas famílias que querem que seus jovens façam de um emprego público o maior objetivo de suas vidas. Mas, todos sabemos que emprego público é uma barganha faustiana. Na obra de Thomas Mann, Fausto, um jovem de mesmo nome vende a alma ao Diabo, Mefistófeles, para conseguir conhecimento e riquezas.

O mesmo acontece quando se passa em um concurso público, o sujeito deve abdicar de quaisquer sonhos de ser um bom profissional e ter seus sonhos vocacionais realizados. Mefistófeles nos proporciona o ganho de um salário por toda a vida, em troca devemos nos acomodar profissionalmente num emprego público, onde em muitos cargos, se chega tarde e se sai cedo, se passa o dia lendo jornal ou tomando cafezinho enquanto estagiários fazem todo o trabalho e não há ninguém que pense em fazer um trabalho bem feito ou em servir a humanidade. Eles só pensam em aumento de salário, promoções, aposentadoria e intrigas. Há exceções, mas são raríssimas. Saiba que se você quiser ser um grande profissional no serviço público terá que enfrentar o seguinte dilema: - deverei trabalhar por mim e pelos outros e não ganhar nenhum centavo a mais por isso, e as vezes nem reconhecimento, ou devo juntar-me aos outros e dar uma banana para a honra profissional? Seria bom ser funcionário público sim...mas na Suécia, Suíça ou Canadá e servir a um governo e a uma sociedade onde tudo funciona, se respeita o cidadão e se é respeitado; mas não ao nosso. Aqui, essa é uma excelente carreira para quem não dá para nada na vida, quem não quer trabalhar ou para quem cujo maior objetivo é simplesmente arranjar uma segurança financeira e ir se realizar em outros campos e empresas.

O pior é que sempre os pais ou os parentes mais próximos costumam vir com a estória de um primo da nora do amigo que passou em um concurso público e está levando uma vida regalada. Isso realmente acontece, mas é uma minoria e nunca se sabe quais foram os expedientes que foram realizados para que aquela pessoa pudesse passar. O erro está em cobrar tal sorte de todos. Os pais e familiares que mandam seus jovens para os concursos são fruto das décadas de 60, 70 e início dos 80 em que se entrava no serviço público pelos mesmos motivos que se entra hoje, mas sem concurso e sim através de indicações e dos trens da alegria, como ficaram conhecidas as admissões por atacado, feitas em troca de votos. Mas hoje, além de ter que se sair bem nas provas ainda não se pode abrir mão de um bom pistolão.

Quem tem objetivos na vida não pode ficar perdendo tempo com a preparação de não sei quantos concursos. Matérias que não contribuem em nada para a profissão daquele jovem. Num semestre está se estudando sobre o sistema financeiro do país para prestar concurso para um banco, no outro a legislação dos Correios. E o pior com o risco mínimo de se passar em algum sem pistolão. Não se fala aqui de concurso para professor primário, gari ou policial civil, pois que tem poder de decisão de fraudá-lo dificilmente irá fazê-lo, pois não quer ver seu filho, irmão, sobrinho ou o filho de um amigo íntimo executando tais funções. Esse pessoal está de olho nos concursos para auditores fiscais, promotores e equivalentes. Que já têm uma concorrência atroz. Esses sim, valem a pena de se cometer uma fraude. É só ler os jornais para ver que não faltam denúncias de irregularidades e escândalos que comprovem isso e notícia de que concurso tal foi anulado e os cursinhos preparatórios em cada esquina se enchendo de dinheiro em qualquer circunstância. Mas infelizmente, o desemprego é tão grande hoje em dia que para muitos não resta alternativa que se sujeitar a isso.

Se uma pessoa ainda sim quer tentar passar em um concurso honestamente, deve fazê-lo sim e se preparar com dedicação. Mas deve encarar isso tudo como participar semanalmente de uma loteria. Ninguém em sã consciência vive em função da aspiração de ganhar um prêmio de loteria que poderá não vir nunca. Por isso, o jovem deve sempre ter um plano B em mente. Ele poderá ter que vir a ganhar seu sustento trabalhando! Em sua própria empresa ou na empresa de outro. E sem estabilidade!

Talvez a resposta para a gana dos brasileiros por um emprego público, possa ser encontrada em nosso período colonial, na velha casa grande & senzala. Lucrar muito sem investir quase nada ou de lucrar sem trabalhar. Para quê ser britanicamente pontual ou trabalhar feito um mouro? Isso fica para os escravos! No Brasil o ganho financeiro nunca foi visto como uma decorrência natural da realização profissional e do sucesso. Esses para nós são exceções. Aqui os exemplos que querem nos fazer seguir são os dos espertalhões, os sabidos que ganham sem produzir e tiram vantagem da corrupção e do erário nacional. Deve haver uma forma mais gratificaste e honrada de servirmos ao nosso país. À nossa maneira.


Novembro de 2003

 

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