Pai e Filho
por Marcel Lúcio Ribeiro
Meu crime foi a desconfiança.
Neste dia acordei com a cabeça meio ruim. Cismara há duas
semanas. Traição é questão de desonra. Sou
um homem sério, trabalhador, de bem. Maria não pode me enganar.
Certeza não tenho, desconfio.
Levantei-me, fiquei limpo, alimentei-me. Maria também está
desconfiada para o meu lado. Não trocamos palavra. Pego na fábrica
às sete horas. Saio de casa. O caminho para a parada é um
pouco longo. Subo a ladeira. Volto-me para o ponto de onde saí.
Não! O que vejo! Maria abraçada com um sujeito. Isso vai
acabar hoje. Tiro o revólver da cintura, volto uns dez passos e
atiro. Disparo certeiro. O corpo cai. Dirijo-me ao local. Maria berra
com a cabeça do homem no colo. O sangue inunda o chão. Não,
não posso crer nesta cena: mãe chorando filho baleado. Era
com nosso filho que ela estava abraçada. João tem dezenove
anos e trabalha como vigia noturno. Aproximei-me com um aperto no peito,
em completo transtorno. João ainda me pede a bênção.
Eu o abençôo. Sinto uma pontada mais forte no peito e caio.
Arrebento meu rosto. Sangue de pai e filho se misturam. Maria mantém-se
inerte.
Recobro os sentidos: a mesma cena. Não posso suportá-la.
Quase desmaio de novo. Encontro forças no rosto pálido de
meu filho. Farei justiça. Corro à delegacia. O delegado
e seus assistentes se espantam e parecem não crer no caso grotesco
que acabei de lhes contar. Se não estivesse encarnado de sangue
e com o revólver em mãos, talvez nem fosse preso, tão
inverossímel julgaram a história. Sou levado a uma cela
com pouca luminosidade e suja. Deixam-me só. Penso em como viverei
sem o único ser que eu amava, que eu acreditava, que constituía
minhas esperanças de realizar meus sonhos na terra. Não
resistirei. Morto por minhas próprias mãos. Absurdo. Só
há um jeito de reparar meu erro. E eu repará-lo-ei. Quanto
a Maria, não quero mais vê-la, tenha traído-me ou
não.
Como posso fazer a única coisa digna a ser feita aqui neste buraco?
Não há objeto que auxilie na tarefa de dar fim a minha existência.
Não posso esperar. Se me matar agora, talvez ainda encontre meu
filho em direção ao céu. Deus não pode me
mandar ao inferno. Agi sem pensar. Paguei duas vezes as conseqüências
de um ato mau. Desde criança, sou católico. Deus não
vai me desamparar. Pagarei sangue com sangue, morte com morte.
No dia seguinte, José foi encontrado morto. Se enforcara com
as próprias mãos.
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Conto inspirado nos versos d'O GRANDE CHORO DO FILHO, que ouvi recitado
por Sebastião das Queimadas, de autoria de Fabião das Queimadas.
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