Donas-de-casa go home!

por Adriano Costa

 

Quando se fala em emancipação feminina, se lembra logo das Chiquinhas Gonzagas, Nísias Florestas ou Anitas Garibaldis da vida. Mas nada se fala daquelas mulheres que o que querem mesmo é ser donas-de-casa, boas donas-de-casa, e são empurradas para o mercado de trabalho pelas agruras das crises sucessivas. Precisam ganhar dinheiro para ajudar seus maridos, quando o que querem mesmo era cuidar da casa, da alimentação e do cotidiano de seus maridos e filhos, inclusive daqueles pequenos detalhes da vida cotidiano, como se o marido vem jantar hoje, o que acontecerá no próximo capítulo da novela, sobre como é a nova namorada do filho ou na ausência desta; quem é a nova modelo da Playboy que, numa “tocante homenagem”, seu filho adolescente anda fazendo justiça com as próprias mãos.

Há mulheres que gostariam de dar ordens a 1 milhão de homens por dia se pudessem. Nas fábricas, nas forças armadas, nos escritórios. Para elas, fazer isso é como uma vingança ancestral. É o troco por séculos de submissão a que foram submetidas. Já outras, não conseguem se adaptar as funções do trabalho fora de casa e quando não ficam pulando de emprego em emprego, no caso das empresas privadas; ficam entulhando e atravancando o fluxo laboral do já ineficiente e lento serviço público. Elas não podem sair porque precisam do dinheiro, a instituição pública fica sem poder abrir novos concursos para aquela função porque teoricamente já há pessoas que fazem aquela função e os novos profissionais saídos ou não das faculdades (homens e mulheres capazes) não conseguem entrar nas instituições públicas justamente porque o governo abre os concursos à conta-gotas. O meio-termo que os dirigentes dessas instituições encontram foi arregimentar estagiários, o que era sinônimo de aprendiz hoje é um eufemismo para a exploração de mão de obra barata e qualificada, além a contratação dos funcionários de empresas terceirizadas. Como resultado, esses profissionais quando não levam o mundo nas costas como o deus grego Atlas (o que geralmente acontece), eles fazem um trabalho de qualidade duvidosa pela falta de compromisso desses funcionários, terceirizados e estagiários, com a instituição para qual trabalha, já que têm a certeza que dificilmente serão efetivados, até porque para isso se exige a abertura e a aprovação em concurso que raramente é aberto.

As donas-de-casa e porque não dizer, os donos-de-casa que não podem ser demitidos, por causa da estabilidade ficam sugando bons salários (vide quanto ganha um profissional de formação equivalente no mercado) sem trabalhar, cheios de maus vícios e ainda sedentos por uma greve. E hoje, depois da revolução da informática, os mais velhos ainda têm o agravante de não conseguir acompanhar as novidades da tecnologia. Não se sabe até quanto tempo o Brasil do serviço público vai resistir a esse regime de trabalho improvisado e manco em que estagiários que ganham pouquíssimo e trabalham muito fazem o trabalho que deveria ser feito por profissionais concursados e ainda substituem àqueles de remuneração cujas alturas são obscenas e não cumprem suas atribuições. Dentre eles, as donas-de-casa que se viram melhor fazendo bolo do que no trabalho burocrático de um escritório.

Na verdade, o dilema enfrentado pelas donas-de-casa é o mesmo daquele vivido, por exemplo, por um surfista que em pleno verão, é obrigado pelas circunstâncias da vida a ficar trancado num escritório de contabilidade.

Infelizmente enquanto seus maridos não ganharem um salário decente ou elas se conscientizarem que seus lugares devem obrigatoriamente obedecer ao eixo cama-tanque-fogão (não necessariamente nessa ordem) as donas-de-casa continuarão sendo, com toda razão, humilhadas por estagiários mal saídos das faculdades e o que é pior, atravancando o desenvolvimento do país.

Primeiro semestre de 2003

 

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