Barcelonense faz sucesso na alta costura

Publicações especializadas em moda como Harper's Bazaar, Elle América, The Face e I-D e a Vogue brasileira não param de elogiá-lo. Ele é Geová Rodrigues, o barcelonense que está fazendo muito sucesso em Nova Iorque. E apesar da fama, ele nunca perde uma oportunidade de falar em sua Barcelona natal.


Nascido em 2 de agosto de 1966, Geová tem dez irmãos e durante a infância costumava pegar escondido a máquina de costura da mãe para fazer suas criações. Fiz isso poucas vezes porque minha mãe ficava muito brava quando a agulha quebrava, lembra ele.

Em Barcelona ele viveu até os 16 anos de idade.  Após mudar-se para Ceará Mirim/RN em 1980 e em seguida para São Paulo/SP Geová iniciou uma bem sucedida carreira com artista plástico.

Quando deixou o Brasil, em 1988, Rodrigues sonhava com a vida de artista plástico na Europa. Ele já havia trocado o Rio Grande do Norte e uma família de 12 irmãos por São Paulo em 1981, aos 15 anos, trilhando a saga dos migrantes nordestinos na busca por horizontes mais promissores. ''Saí de Barcelona alguns meses depois da morte da minha mãe. Queria ser pintor'', conta.

Na capital paulista, completou o 2° grau e virou habitué do Madame Satã, casa noturna que dominava o cenário underground da época. ''Eu fazia performances e exposições, cheguei a participar de uma coletiva no MAM do Rio'', lembra. Em 1987 com a venda de todos os quadros de uma exposição, ele amealhou US$ 2,5 mil e, pretendia viver em Londres, mas foi estudar técnicas de gravura e pintura em Paris.

Geová Rodrigues em Nova Iorque

''Em Paris, reencontrei um casal que havia conhecido em São Paulo e eles me ofereceram um quarto no apartamento deles'', conta. Lá ele expõe na Escola Molière. Em Paris, ele foi apresentado a um marchand, que passou a vender seus quadros. Depois de dois anos na França, foi para os Estados Unidos, acompanhando um amigo americano. Lá, desembarcou em Nova Iorque, achou tudo muito feio e seguiu para Charlotte, cidade de 440 mil habitantes na Carolina do Norte, onde além de continuar a pintar revela que estudou inglês e trabalheou cuidando de jardins de conhecidos, “destruí muita flor'', diverte-se. Em 1993, três anos após sua chegada aos EUA, resolveu tentar a sorte como artista plástico em Nova York. Um amigo, de novo, deu a mãozinha providencial. No caso, Paul Eustace, então diretor de arte da Harpers Bazaar. Foi Eustace quem convenceu o brasileiro, que sempre assinou G. Rodrigues por vergonha do nome, a assumir o Geová. Deu sorte.

Por intermédio de Eustace, o pintor conheceu fotógrafos e produtores de moda e começou a fazer bico para a turma. Batendo perna para buscar e levar roupas a ser fotografadas, Rodrigues percebeu que o lixo da 6ª Avenida (batizada de Fashion Avenue por concentrar dezenas de confecções) era abarrotado de tecidos descartados dos ateliês de Calvin Klein, Anna Sui e Donna Karan.

Em 1994 ele adquiriu uma máquina de costura de um amigo como pagamento por um de seus quadros e decidiu virar estilista. Passa a produzir suas roupas guiado pela "desconstruction costure" ou “redesign”, movimento da moda cuja principal característica é redesenhar roupas de grandes criadores. Ele cria suas roupas e assessórios apartir de materiais nobres como chiffon de seda e couro. Ele se apropria de peças de marcas como Prada, Jean Paul Gautier, Yves Saint Laurent, que são desconstruídas e reformuladas com outro design. Assim, uma saia pode se transformar em uma blusa, uma blusa adaptada para um vestido, e assim por diante. ''Eu tinha trocado um quadro por uma máquina de costura, mesmo sem nunca ter pregado um botão, e comecei a fazer roupas na marra'', lembra. O trabalho do autodidata encantou os amigos produtores, que o incentivaram a fazer um desfile. O début, em outubro de 1998, não poderia ter sido mais bem-sucedido: a coleção foi vendida imediatamente para a sofisticada loja Louis Boston, em Boston. ''Um luxo'', diz Rodrigues, usando sua palavra preferida.

Fernanda desfila na coleção verão 2004 de Geová Fernanda encerra desfile de Geová em NY - 2004 Moda com influências indígenas

Aclamado como o papa do ''redesign'', pelo conceito de reciclagem de suas criações, o estilista costuma ser comparado à grife Imitation of Christ. ''Só que eles começaram depois de mim e têm mídia porque são amigos da atriz Chlöe Sevigny. Aí tudo fica fácil'', alfineta. Rodrigues prefere ser comparado às costureiras do interior do Brasil. ''Quando trabalho penso na minha mãe, que desmanchava roupas dos filhos mais velhos e refazia para os menores'', conta o estilista, que chama a mãe, Maria Genilda Marinho, pelas iniciais, MGM. ''Ela era muito fashion'', brinca. A diferença está no preço. Enquanto os vestidos do Geová Atelier saem por US$ 1.000 (R$ 2.700), as peças das costureiras de interior dificilmente ultrapassam R$ 100.

Em 1993, Geová se matriculou na Parsons School of Design, instituição que está para o mundo da moda como a Harvard para o mundo acadêmico. Foi lá que Geová conheceu lá a brasileira Jussara Lee, responsável por divulgar seu trabalho. Mas, o artista não se animou com o ambiente e ficou apenas seis meses.

Para os críticos de moda, Geová não é mesmo é um fashion designer convencional. Ele garimpa roupas usadas de grifes do bairro nova-iorquino de East Village, onde mora, e com elas constrói novas peças. “Toda terça-feira e quinta-feira, ateliês jogam fora o que não serve mais. Pego uma calça, transformo em casaco e assim por diante”, diz. Numa dessas transformações, Geová cortou uma calça de couro e fez um biquíni para uma reportagem de moda com Gisele Bündchen. “Da joelheira, que tem o formato do seio, fiz um bustiê”, conta. Feitas à mão, com acabamento trash, suas peças ganharam fama no meio alternativo nova-iorquino. Uma roupa com sua marca custa de US$ 85 a US$ 1,2 mil. “Quem compra se sente especial, pois ninguém tem nada parecido”, diz. Para a crítica de moda Carolina Overmeer “Aos poucos o estilista brasileiro Geová Rodrigues vai conquistando seu lugar sob o sol novaiorquino. Por aqui ele ainda não é conhecido – será que precisa explodir lá fora primeiro? – mas isso é só uma questão de tempo. Eu, que já visitei seu ateliê, entrevistei-o para o livro Backstage e voltei com uma blusa sua na mala, digo: Geová é original, corajoso e faz coisas muito bacanas. Quando visto o seu presente todo colorido e customizado, não há quem não me pare na rua e pergunte: De quem é?”

Os preços das peças criadas por Geová e inspiradas nas bonecas de pano de Barcelona variam de US$ 250 a US$ 2,3 mil. Isso prova que não precisamos ter inveja ou copiar os usos e costumes estrangeiros, com os elementos colhidos da nossa cultura popular sertaneja podemos fazer sucesso em qualquer parte do mundo seja qual for o ramo da arte ou se o destino da obra é a indústria cultural.

Em seu primeiro desfile de estréia em outubro de 1998, estavam presentes, dentre outros, a modelo Naomi Campbel. A supermodelo Kate Moss é uma de suas clientes. As modelos, alias, adoram participar de seus shows, mesmo recebendo roupas em vez de cachê. A última coleção deveria ter sido apresentada em 18 de setembro, mas o desfile foi remanejado para 29 de outubro por conta dos superatentado terrorista aos Estados Unidos.

Não é por menos, na matéria “Tem potiguar em NY” (21/10/2001) o Jornal do Brasil se surpreende ao dizer que Geová é um “estilista brasileiro que recicla roupas vira queridinho de descolados nos EUA Quase ninguém no Brasil sabe quem é o estilista Geová Rodrigues. Mas o potiguar nascido na minúscula Barcelona, a 80 km de Natal, é um dos brasileiros mais conhecidos no mundo da moda nos Estados Unidos”.

Geová fez um desfile em Nova Iorque em 11 de fevereiro de 2001 patrocinado pela Ford americana. Quase um mês depois ele, junto com a modelo natalense Fernanda Tavares, foi entrevistado pela MTV brasileira e lançou uma coleção no circuito alternativo da 7th on Sixth de Nova York, a Semana de Moda de Nova York.

Ele já foi tema de reportagens em revistas americanas importantes como Harpers Bazaar, Elle, I-D e The Face. No mês passado, a revista Time Out classificou Rodrigues como um ''fast-on-the-rise designer'', algo como ''estilista em rápida ascensão''. além disso ele também já foi capa do Los Angeles Times e alvo de perfil na Interview. Até Gisele Bündchen se rendeu, ela posou para as lentes do prestigiado fotógrafo David Lachapelle usando um short de couro ''by Geova''. Já Gisele Teixeira correspondente em Recife da Gazeta Mercantil não hesitou dizer numa reportagem pupucladaem 11 de junho de 2001 que “Pernambuco vai dar o que falar no mundo fashion este ano. O Shopping Center Recife está investindo R$ 1,8 milhão para produzir um megaevento de moda, que já nasce com a promessa de ser o terceiro mais importante do Brasil, atrás apenas do São Paulo Fashion Week (SP) e do Barra Shopping (RJ). Para garantir as atenções da imprensa especializada, inclusive do exterior, o projeto irá trazer pela primeira vez ao País o estilista Geová Rodrigues, que nasceu no Rio Grande do Norte mas mora há anos em Nova Iorque. Quase desconhecido pelos brasileiros, Geová é disputadíssimo em editoriais de moda de revistas como Baazar, ID, The Face, Interview e Elle. “

Geová em seu ateliê de Nova Iorque Gisele Bundchen veste criação de Geová em ensaio para a revista Harper's Bazaar Geová e as influências do Nordeste em sua obra

Geová vive sua melhor fase profissional. Além do reconhecimento nas revistas de moda, está prestes a entrar no mundo dos grandes magazines. Compradores de lojas nova-iorquinas sofisticadas como Barneys e Henry Bendel já avisaram que visitarão o Geová Atelier depois do desfile. Com um sotaque americano-nordestino de quem mora em Nova York há dez anos, mas não perdeu os traços de origem, ele explica a construção desse look: “O chapéu de entretela prateada com cordas douradas eu fiz de um rolo de tecido que achei na rua, em Las Vegas; o top é de um pano africano e a saia é feita de um brocado que ganhei de presente de um amigo”.

Em 11 de março de 2002 Geová Rodrigues foi o único estilista brasileiro que participa da Latin America Fashion Exibition, em Nova Iorque. Tanto que ele foi escalado pelo F.I.T. – Fashion Institute of Technology – como um dos representantes da alta costura latino-americana para a exposição inaugurada no museu do Instituto. Geová Rodrigues conta que para fazer sucesso num mercado tão competitivo como o de Nova York é preciso pensar rápido, produzir rápido e ter uma enorme paciência para esperar. "Isso vale para tudo em Nova York", diz ele.

Vejamos como Jocéli Meyer numa matéria intitulada “Mistério nas passarelas de New York” da Brazilian Press Magazine (Primavera Verão 2003), publicação muito conceituada de moda, se refere a um desfile de Geová “ Inquietação. Tensão frente ao assunto mais polêmico do momento: a guerra. O temor do desconhecido, dos rumos que o mundo pode tomar daqui para frente refletiu-se na criação do conceituado estilista brasileiro Geová Rodrigues, que lançou sua nova coleção outono-inverno 2003 sob o tema Mistério na Semana de Moda de Nova York, evento da qual participou pela nona vez. Durante o desfile nos estúdios da ABC na Times Square em Manhattan, os modelos levaram para o palco cores como o dourado, o preto, o branco e o cinza através de uma deslumbrante mistura de tecidos e texturas. Super-valorizada, a renda deu o toque leve e suave sobre os chiques modelitos. As novas 34 modernas peças, entre 26 vestidos para a noite, quatro saias e quatro tops foram feitas seguindo as mesmas fórmulas usadas por esse verdadeiro ‘alquimista’ da alta costura em seu próprio atelier no bairro nova-iorquino de East Village. Sem desenho prévio, o estilista e também artista plástico cria suas roupas inspirado pelos tecidos que mais gosta, primando pela harmonia e equilíbrio. No final, o resultado é proporção ao conjunto. ‘Cada coleção é uma continuidade de lapidação’, diz o estilista. A casa como já era esperado estava lotada. Entre os 15 sensuais modelos estavam quatro brasileiras. Uma delas, Camila Dubey, é a quinta melhor modelo segundo a Vogue Teen.”

Dia 15 de outubro de 2003 três criações do designer foram expostas no evento "Tudo T-Shirt", que será realizado no Alamanda Mall. As peças de Geová que vieram para Natal fazem parte da coleção que o estilista apresentou na Semana de Moda de Nova Iorque. Ele destinou duas camisetas costumizadas e um short. Porém, a grande atração promete ser um vestido usado por Fernanda Tavares no desfile da Nova Iorque Fashion Week. Numa das peças, ele interferiu sobre duas camisetas da marca Sharpes. ‘‘Trata-se de uma imagem que faz uma incrível ligação entre Nova Iorque e Barcelona, cidade onde nasci", conta o estilista.

A modelo Fernanda Tavares é uma grande amiga do estilista. Inclusive, na tarde do dia 25 de dezembro de 2003, ela esteve visitando Barcelona em companhia de seu pai, Fernando Luiz e de seu irmão. A modelo veio conhecer, além da terra e da família de Geová, também Dona Bita, uma velhinha que fazia as bonecas de pano nas quais ele se inspira para fazer as sua criações. Fernanda também fotografou a cidade e visitou a escola onde Geová estudou. Na opurtunidade foi-lhe entregue para que fizesse chegar a Geová um troféu que o estilista havia ganho, como sinal de reconhecimento de seus conterrâneos, durante as comemorações do Dia de Barcelona (45 anos de emancipação política do município) em 17 de dezembro. As quais ele não pode comparecer.

Nicole Garrett, uma das editoras da Harper's Bazaar mostrou suas criações para ninguém menos que John Galliano - que manifestou interesse em tê-lo em seu staff e está esperando seu portfólio completo.

Agora o estilista barcelonense já tem um escritório de representação, o Fashion Brasil e pretende ampliar seus domínios. Umas das coisas que mais chamam a atenção em Geová é que ele nunca esquece Barcelona. E sempre cita com muito carinho sua terra quando dá entrevistas. Inclusive ao propor peças inspiradas no que Barcelona e Nova Iorque tem em comum...Coisas de artista...

 

Imagens do desfile da coleção verão 2004 em NY    

 

Visite o site de Geová: www.geovafashion.com

 

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