Contando o que ainda não foi contado

por Adriano Costa

 

Desde os velhos tempos, Barcelona guarda lembranças gravadas no imaginário e no dia-a-dia dos moradores histórias de fantasmas, assassinatos, botijas enterradas, chuvas que fizeram rolar pedras de serras deixando a marca até hoje...

Antes quando não havia rádio e televisão, depois do trabalho na lavoura, as pessoas se reuniam à noite nas calçadas para contar histórias do passado e casos de assombração. Um fator importante era que tudo isso era recheado com a visão de mundo desse povo, eles não consumiam uma ficção pronta, já interpretada, um simulacro Baudrillardiano.

Por uma questão de financiamento, as histórias contadas e efetivamente publicadas são geralmente a de lugares desenvolvidos ou, no caso de campanhas militares, de acordo com a visão dos vencedores. Mas a história está viva até nas áreas rurais mais afastadas esperando para ser contadas e só não foi ainda na maioria dos casos por motivos puramente econômica.

O escritor e professor Gilberto Mendonça Teles, eleito Intelectual do Ano em 2002 disse em recente entrevista que "As universidades precisam assumir sua regionalidade com uma perspectiva de universalizar sua região". (in: Poeta ganha Juca Pato com livro teórico, p. E5, Ilustrada, Folha de São Paulo, 9 de agosto de 2003). Por isso é função das universidades, sobretudo das públicas, se preocupar com certas partes do país que são esquecidas porque não têm despertados interesses econômicos. O que não significa que um dia não serão alvo da cobiça de capitalistas.

Imagine-se, então, a quantidade de material histórico de interesse para a auto-estima dessas comunidades que é perdido a cada dia por falta de registro. Como diz um antigo provérbio africano: "Quando um homem morre é como se uma biblioteca inteira se incendiasse". É por isso que há mais de 2 anos o Portal virtual Barcelona ajuda a preservar on-line a memória do município de Barcelona.

É preciso refletir sobre o papel da oralidade na construção do conhecimento nesses tempos de tecnologia digital. Por um lado, temos a longa tradição dos folhetos de cordel que são pura história oral do outro a convergência multimidiática que a web proporciona: do ressurgimento da comunicação por escrito através do e-mail, que antes se pensava morta depois da difusão do telefone, aos bancos de dados mantidos pelos grandes portais com todo o registro dos chats que eles promovem entre seus convidados e o público.

Barcelona é um portal de Internet para suprir deficiências bibliográficas sobre temas locais, de forma gratuita, permanente e sem depender das leis que regem o mercado livreiro. E por falta de bibliografia escrita, antes das informações irem para a web, é preciso recorrer a história oral. Pois, se quisermos ter um futuro, é preciso saber quem somos.

Muitos idosos e outros membros da comunidade nos tem dado depoimentos muito esclarecedores sobre fatos antigos úteis para o estudo da atual geração e das gerações futuras. Não esqueçamos que os indígenas devem o resgate de sua cultura a história oral. E além disso, de certa forma, o gênero musical rap é também fruto da história oral.

A história oral é uma metodologia de pesquisa que consiste em realizar entrevistas gravadas com pessoas que podem testemunhar sobre acontecimentos, modos de vida, conjunturas, instituições ou outros aspectos da história contemporânea. Há inúmeras pesquisas que utilizam os relatos pessoais sobre o passado para o estudo dos mais variados temas.

Desde o final da década de 80, do século XX, cada vez mais historiadores, sociólogos, antropólogos e profissionais da área das Ciências Sociais vêm valorizando como metodologia de investigação a narrativa oral. Fatos, episódios históricos, festividades e outros acontecimentos narrados por pessoas que vivenciaram tais eventos, vêm demonstrando sua importância para a reconstrução da memória ou mentalidade de todo um povo, ou de uma comunidade. Esse método de pesquisa, em algumas décadas atrás não tinha muito apoio dos acadêmicos mais ortodoxos.

A verdade é que a academia tem valorizado cada vez mais a tradição oral como fonte de investigação. Um exemplo disso são os trabalhos do professor francês Phillipe Joutard, pioneiro da história oral na França, reitor da Academia de Toulouse e conselheiro do Ministério da Educação do seu país.

Os depoimentos permitem compreender como indivíduos experimentaram e interpretam acontecimentos, situações e modos de vida de um grupo ou da sociedade em geral. Isso torna o estudo da história mais concreto e próximo, facilitando a compreensão do passado pelas gerações futuras, bem como das experiências vividas por outros. Além disso, trata-se de registrar a memória histórica sem a qual se perderá. O ser humano, célebre ou anônimo, tem o desejo de preservar sua história.

Ao contarem as experiências mais dolorosas, oralmente ou escritos de caráter intimista, as pessoas "comuns" preservam a memória coletiva da sua comunidade, ao mesmo tempo que reforçam a sua própria identidade social.

Álbuns de família, livros de receitas passados de geração a geração, peças de decoração, cartas de amor, de impressões de viagens, diários particulares, vestuários antigos, crônicas publicadas em jornais, revistas de modas, depoimentos de lideranças comunitárias. Esses são alguns dos instrumentos usados por pesquisadores, muitas vezes, para reconstituir a história de um país, de uma comunidade ou de um grupo social específico. Método que a partir da década de 80 passada começou a ser denominado de história das mentalidades, iniciado na França.

No passado, historiadores e a academia valorizavam muitos os documentos escritos, onde se expressava, sobretudo o pensamento das classes mais privilegiadas do ponto de vista social, econômico e político. Os depoimentos, vivências de pessoas ou de grupos de setores da população menos abonados financeiramente, muitas vezes eram usados secundariamente. Podemos afirmar que, no passado, 95% dos documentos usados pelos historiadores eram material impresso ou escrito.

A memória histórica narrada por pessoas que vivenciaram certas situações enriquecem a pesquisa, pois possibilitam ao investigador trabalhar com o imaginário sociológico e a representação social que o fato teve para uma comunidade determinada, ou para as pessoas envolvidas com o acontecimento.

Quem é ouvido são as pessoas que viveram os acontecimentos; o objetivo de estudo é o barcelonense médio, que interpreta o percurso da sua própria vida. Através disso pode-se construir uma história popular de uma determinada população, que, aliás, sempre existiu do lado da história oficial e científica da sociedade.

Hoje, o depoimento de pequenas comunidades, como a de Barcelona, possibilitam a reconstrução da história desses povos ou de suas respectivas comunidades. E isso deve estar disponível a eles, em seu favor.

 

07.04.2004

 

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