"Eu quero uma casa no campo"

por Adriano Costa

 

Você tem tempo para olhar o pôr do sol, prestar atenção nas fases da lua e a celebração da vida que é a natureza? Num de seus sonetos mais conhecidos, o poeta árcade Cláudio Manoel da Costa (1729 - 1789) escreveu no primeiro quarteto:

Quem deixa o trato pastoril amado
Pela ingrata, civil correspondência,
Ou desconhece o rosto da violência,
Ou do retiro a paz não tem provado.

O poeta vislumbra apenas duas possibilidades para quem deixa a convivência no campo pela vida urbana: Certamente o indivíduo desconhece a violência nas cidades (no século XVIII !) ou leva, por algum motivo, uma vida intranqüila no campo. Pois bem, qual estudante interiorano perdido na cinética das grandes cidades brasileiras já não pôs a mão no queixo e leu este soneto num livro escolar de português ou literatura, soltando as rédeas de seus pensamentos que galopam em disparada para seu distante lar rural? Onde o tempo passa sem presa, se pode nadar e pescar em águas limpas, o ar é puro, se ouve o canto dos pássaros, se pode comer alimentos sem agrotóxicos e colhidos pelas próprias mãos sem ter que passar num caixa.

Que bem é ver nos campos transladado.
No gênio do pastor, o da inocência!
E que mal é no trato, e na aparência
Ver sempre o cortesão dissimulado!

Fora isso, sabe-se que o processo de urbanização do Brasil, motivo pela industrialização durante a segunda metade do século XX e a falta de políticas agrárias eficientes levaram muitos agricultores a abandonar o campo rumo as grandes cidades que se formavam. De meados dos anos 40 aos anos 80 inverteu-se no Brasil a população rural/urbana. Hoje, 81% dos brasileiros vivem nas cidades. Esse aborto violento gerou nos brasileiros de hoje que nasceram nas grandes cidades um desejo inconsciente de voltar para o seu meio ambiente ancestral. Muitos brasileiros sentem falta do contato físico com a terra; ter caminhadas como exercício, em vez de bicicletas ergométricas. Por isso, muitos brasileiros compram chácaras no interior para passar os fins-de-semana, para morar depois de juntar algum dinheiro ou quando se aposentar. É bem provável que muitos brasileiros sofram daquela nostalgia do campo que os estudiosos chamam de "síndrome pastoril". É uma saudade envergonhada, que se extravasa nas festas juninas, na audiência de novelas com temas agrários.

Ali respira amor, sinceridade;
Aqui sempre a traição seu rosto encobre;
Um só trata a mentira, outro a verdade.

Essa antiga tese foi estudada recentemente pela jornalista Gislene Silva numa tese de doutoramento em Antropologia, na PUC - Pontifícia Universidade católica de São Paulo com o título de "O imaginário rural do leitor urbano: o sonho mítico da casa no campo". Num artigo publicado na revista Globo Rural (março de 2001), da qual é repórter, ela esclarece que o estudo partiu da pergunta: "Por que muitos moradores urbanos, que não possuem sítio ou fazenda, lêem regularmente a revista Globo Rural?"Nele ela conclui que "A saudade do campo pode ser interpretada ainda como expressão de sentimentos míticos que o homem, até mesmo o mais urbano e moderno, carrega em relação à natureza, com a qual tinha uma ligação mais harmoniosa e intensa no tempo das comunidades primitivas. Esse anseio rural contemporâneo na virada do século XX para o XXI é mais contundente e transgressor do que ideário pastoral conhecido no romper da Revolução Industrial no século XIX. O que se deseja agora é não mitificar a urbanidade como o mais seguro e mais puro dos mundos. A proposta, portanto é combater as vantagens sociais, econômicas e culturais de uma borbulhante cidade com as qualidades ambientais e harmônicas do meio rural."

Ali não há fortuna, que soçobre;
Aqui quanto se observa, é variedade:
Oh ventura do rico! Oh bem do pobre!

Em Barcelona, por exemplo, que é um município com pouco mais de quatro mil habitantes, seus moradores costumam ter relações interpessoais mais calorosas e intensas. Todos se conhecem, a sensação de segurança aumenta porque é mais fácil localizar os estranhos. Poder-se-ia dizer que aqui todos sabem nome, sobrenome, apelido, profissão e a presença ou a ausência de caráter de cada um. Aqui, como em outras pequenas cidades, as pessoas se cumprimentam, já nas grandes cidades são tão formais que não se sabe (no caso dos condomínios) quem nos avizinha. O que é salutar para os reservados, revela mesmo ser pura indiferença.

 

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