Camões é um João Grilo no sertão

por Adriano Costa

 

Há diversas pistas dentro da própria cultura popular do sertão que provam essa irmandade entre colonizador e colonizado. Há no interior do nordeste brasileiro, também em Barcelona, um ciclo de histórias populares de tradição exclusivamente oral que relatam as peripécias de um “sabido” que sempre evitava que o rei lhe pregasse uma peça, a despeito dos esforços reais.

O povo chama o seu anti-herói de “Camonge” que nada mais é do que um personagem do romance picaresco, à maneira de João Grilo, personagem de diversos folhetos de cordel e da peça “O Auto da Compadecida” de Ariano Suassuna. Provavelmente a partir de apenas uma história, surgiram várias outras que são passadas através da tradição oral nordestina. As histórias ora parecem se ambientar no sertão, ora lembram Portugal. Muitas vezes o anti-herói tem ares de contestador e em outras parece conformado em estar inserido numa sociedade de subserviência nobiliárquica. Pois bem, o “sabido” Camonge tão querido pelo povo sertanejo, é na verdade a corruptela do nome do poeta português Luís de Camões, o autor de Os Lusíadas.

Luís Vaz de Camões foi um poeta português (1525?-1580) considerada uma das obras mais importantes da Literatura portuguesa. De família da pequena nobreza, ingressa no Exército da Coroa de Portugal e participa da guerra contra Ceuta, no Marrocos, durante a qual perde o olho direito. Boêmio, de volta a Lisboa freqüenta tanto os serões da nobreza como as noitadas populares. Embarca para a Índia em 1553 e para a China em 1556. Em 1560, o navio em que viaja naufraga na foz do Rio Mekong. Camões salva os originais de Os Lusíadas nadando até a terra com o manuscrito embaixo do braço. Nove anos depois, retorna a Lisboa com a intenção de publicar o poema, o que só acontece em 1572, graças a um financiamento concedido pelo rei Dom Sebastião. Os Lusíadas funde elementos épicos e líricos e sintetiza as principais marcas do Renascimento português: o humanismo e as expedições ultramarinas. Sua base narrativa é a expedição de Vasco da Gama em busca de um caminho marítimo para as Índias. Nela, mescla fatos da História portuguesa a intrigas dos deuses gregos, que procuram ajudar ou atrapalhar o navegador. Morre em Portugal, em absoluta pobreza.

As estórias de Camonge da tradição oral nordestina foram recolhidas no segundo semestre de 2003 em Barcelona. Por mais que tentasse, o Rei despeitado não conseguia nem ser mais esperto que Camonge e passar-lhe a perna, nem conseguia se livrar dele. A figura de Camonge é como se o povo quisesse dizer: vocês poderosos podem ter autoridade e poder econômico, mas nós temos a astúcia, inclusive para burlar essa autoridade.

Podemos dizer que nas estórias de Camonge, a figura do Rei e da Rainha é uma referência à autoridade e a reminiscência do velho reino português de seus antepassados. Já conflito entre Camonge X Rei representa o contraste entre a obediência X poder, pobreza X riqueza, governado X governante, astúcia X poder.

As estórias transcorrem em um reino que ora é medieval, ora é o sertão nordestino.

A figura intelectual mítica de Camões que no sertão além de inteligente é esperto. Não é à toa que até hoje nas camadas mais pobres, o significado dessas duas palavras se confunde.

Na verdade, o fato dos sertanejos terem elegido Camões para ser um pícaro, mostra muito bem o grande antagonismo que há entre a novela picaresca (cômica e de cunho renascentista) e a novela de cavalaria (épica e medieval). Nas palavras do escritor Ariano Suassuna:

“A novela picaresca entrou para a tradição ibérica com o barroco, no fim do século XVI e começo do XVII, na transição da Renascença. É aí que nasce a novela picaresca com aquele elemento popular extraordinário. Eu acho, por exemplo, que o Dom Quixote é uma obra típica do barroco. A obra de ficção típica da Idade Média é a novela de cavalaria, idealista, aristocrática. E a obra de ficção em prosa da Renascença é a novela picaresca, popular, realista. Na novela picaresca o assunto principal é a fome, porque todas as astúcias que o personagem pratica é pra conseguir a comida do dia, porque no dia seguinte é outra coisa. Então, são duas vertentes bastantes contraditórias, a novela de cavalaria e a picaresca. Ora, em uma obra barroca, como a meu ver é o Dom Quixote,Cervantes faz convergir as duas vertentes: a novela de cavalaria aparece no romance através do Quixote, e a vertente da novela picaresca através de Sancho.” (Revista "VINTÉM"- Ensaios para um Teatro Dialético. Editora Hucitec - número 02 - maio/junho/julho 1998. Companhia do Latão).

Por isso tudo se pode dizer que há uma grande semelhança entre Camonge, João Grilo (protagonista de “Auto da compadecida” marco do teatro brasileiro, publicado em 1956, que está aliado à tradição ibérica) e Kim, personagem de um clássico da literatura inglesa, com linguagem acessível para o público jovem escrito por Rudyard Kipling em 1901. Esse romance revela muito da vivência do autor, nascido na Índia, de pais ingleses. No livro, Kimball O´Hara é um garoto de rua, órfão de um ex-sargento do regimento irlandês, que encontra casualmente um velho lama tibetano. O monge busca o Rio das Flechas - rio sagrado que o libertará das sucessivas reencarnações. O garoto e o lama estabelecem uma forte ligação, e Kim resolve segui-lo como discípulo. Nas ruas das cidades indianas Kim, tal e qual João Grilo, consegue sobreviver e escapar dos perigos às custas da própria astúcia.

Á seguir confira algumas estórias de Camonge recolhidas no município de Barcelona. Um lembrete: originalmente essas estórias não têm título. Os títulos abaixo são unicamente para melhor organizar e distinguir uma da outra.

Ver o mundo

O rei e a rainha tomavam banho nus todo dia numa fonte. Certo dia, quando a rainha tirou a roupa, o rei disse:

- Oh senhora Rainha! Agora eu vi o mundo todinho!

Camonge que estava por ali, detrás de umas moitas, caçando o cavalo disse:

- Oh senhor Rei! Viu meu cavalo também?

 

O melhor comer do mundo

Camonge ia passando quando o Rei perguntou:

- Camonge, qual é o melhor comer do mundo?
- Ovos duros, senhor Rei.

Depois de muito tempo, Camonge voltava de uma viagem. Aí o Rei perguntou:

- Com o que Camonge?
- Com sal, senhor

OBS: ovos cozidos sem sal é intragável.

 

Passeio de Camonge

Toda noite Camoge ia passear. Certo dia o Rei mandou uma negra vestida com roupa de homem mondada numa égua tangendo uma porca. Quando ele chegou, o Rei perguntou:

- Camonge, encontro quem?
- Senhor Rei, encontrei uma negra ou um negro montado numa égua ou num cavalo, tangendo uma porca ou um porco.

 

A pedra de Camonge

Na frente do palácio real tinha uma pedra. Todos os dias Camonge subia na pedra e ora ficava olhando para o céu, ora para o chão.

Certo dia, o Rei aproveitando a ausência dele chamou um grupo de homens virar a pedra. Depois colocou uma folha de papel em baixo e pôs a pedra no mesmo lugar, tendo o cuidado de deixar o local como o encontrara, sem deixar rastros de sua ação.

No outro dia, Camonge veio e subiu na pedra novamente. Lá ele voltou a seus pensamentos, olhando ora para baixo, ora para cima.

Aí o Rei perguntou - Camonge você está aí admirado por quê?

- Senhor Rei, há uma diferença grande...

- Que diferença Camoge? Replicou o Rei.

- Ou o céu baixou ou a terra subiu. Nem que seja da altura de uma folha de papel.

 

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