Caicó, uma Barcelona “bombada”


Por Adriano Costa

Semana passada fui a Caicó, no interior do nosso Estado. Eu nunca havia estado lá antes. Logo na entrada da cidade, o visitante se depara com ícones de três paixões nacionais: um estádio de futebol, um motel e um presídio.

Eu ia usar um antigo chavão aqui e dizer que Caicó é uma cidade agradável, acolhedora e de um povo hospitaleiro. Mas prefiro falar de outros assuntos aqui.

É curioso estar numa cidade...grande de certa forma, mas onde todo mundo parece e se comporta como quem vive numa cidadezinha como em Barcelona. Estar em Caicó foi uma experiência interessante. Uma cidade do interior com semáforos em toda parte!

Caicó é literalmente um “interiorzão”. Uma cidade grande, mas com o jeitão de interior. Lá, eu me senti em casa ou seja, me senti em Barcelona. É arriscado dizer-lhes que não foram poucas as vezes que me senti como se estivesse numa Barcelona que “tomou anabolizantes” ou para ser mais exato, numa Barcelona do futuro que quintuplicou de tamanho. É claro que quando em me refiro aqui ao futuro de nosso município, estou excluindo a possibilidade de Barcelona virar uma cidade fantasma.

Famosa por seu artesanato e seus queijos, por seu calor infernal e pelas galegas, Caicó tem de tudo o que uma cidade grande tem: bancos (no plural mesmo), catedral, postos de gasolina, faculdades (inclusive um campus avançado da UFRN), hotéis e um comércio movimentado.

Com relação a simbolismos semióticos estive pensando que se em nosso Estado Natal é a “cidade capital” e Mossoró é a “cidade piada”, Caicó é a cidade aristocrática. Para isso eles têm a seu favor uma economia próspera, um povo que professa um catolicismo conservador quase medieval e um povo que se orgulha de sua ascendência cristã-nova (judeus que vieram da Europa e foram convertidos à força ao cristianismo). O que lhes proporcionou uma população formada em boa parte por loiros de olhos azuis. Seio das famosas galegas Made in Caicó.

No hotel, perguntei ao recepcionista se na cidade havia museus. Ele disse que sim, mas que só abriam em épocas de festa como a de Sant´Ana. Bem como a fonte na praça principal, cuja iluminação só é ligada em datas especiais. Fiquei pensando que era um estranho misto de museu com uma dessas casas de shows que tanto proliferam pelo interior. Mas não sei o que é pior: um governo que nega a cultura ao seu próprio povo ou aos turistas fora de época, assim como eu. Caicó tinha museu e fonte apenas para inglês ver. Porque não estimular os professores locais a realizar visitas agendadas com seus alunos? Para que pudessem valorizar a riquíssima história de uma cidade que foi fundada em 1725.

Levei 5h de viagem para chegar na, espero, Barcelona do futuro. Levamos vantagem: um dia, os bisnetos dos atuais natalenses levarão apenas 1h30min para visitar a nossa futura Caicó do passado, ou seja, de hoje. E como estaria Caicó? Na melhor das hipóteses próspera e imensa (se é que isso não é um paradoxo), na pior, ainda com os museus fechados para sua própria população.

Desses lados do interior eu só conhecia até Santa Cruz. Conhecendo Currais Novos (de passagem) e sobretudo Caicó, eu tive poucas dúvidas e uma grande certeza: Santa Cruz é muito feia. Mas muito mesmo. Se você quiser levar a família ou amigos para conhecer o interior do Estado, não os leve para Santa Cruz. E imaginar que um dia Barcelona pertenceu a esse município...

Mas o que pude reparar é que os caicoenses são meio megalomaníacos. Isso não deixa de ser um traço provinciano. Eles têm a mania de pensar que Caicó é o centro do Universo. O que é um absurdo, porque todo mundo sabe que Barcelona é que é o centro do Universo. Não é?!


05.04.2005

 

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