E se chovesse ácido sulfúrico?

por Adriano Costa

 

Basta uma chuvinha ou uma greve para as pessoas logo arranjarem um bom motivo para não honrarem seus compromissos. E quem tem carro arranja a desculpa de que não pôde comparecer porque a mãe, o pai ou o cônjuge precisou do carro. Na verdade é disso que falamos aqui: da infinita capacidade criativa nacional de arranjar pretextos para não ter que honrar um compromisso.

Ter morrido é um bom motivo para se faltar a um compromisso sem avisar. Isso do ponto de vista terreno, porque pela ótica espírita, nada impede que a pessoa ausente possa se manifestar para dar uma justificativa. Afinal, quanto custa o tempo daqueles que o esperam ou dependem do seu trabalho?
Nada?

Deveríamos odiar quem odeia o relógio. Até já sei o que está pensando. Mas suponho que a expressão "escravo do relógio" foi inventada por quem não era escravo da responsabilidade. Alguém não lá muito digno de confiança. Muita gente vê empecilho, onde deveriam ver incentivo. Vêem muito "por causa de", onde deveria haver "apesar de".

Detesto ser recorrente, mas há diferenças entre um povo originado de pequenos agricultores que lutaram contra as adversidades para não morrer de fome e uma sociedade construída sob a égide da injustiça social lavada em sangue escravo. De alguma forma, a ventura do lucro fácil e o desejo de não precisar trabalhar para sobrevier nos é passado geração após geração até os dias de hoje.

Em nosso passado colonial escravocrata, trabalhar não trazia dignidade nenhuma para o homem. Isso era coisa de escravo ou de brancos pobres desafortunados. Nessa época, graças a escravidão, a elite brasileiratinha muito tempo ocioso para perder. O mesmo acontecia com a elite de hoje graças a má distribuição de renda. Já o escravo não obedecia relógio porque o seu tempo não lhe pertencia, mas sim ao seu dono.

É incrível como em nosso serviço público, por exemplo, os prazos são normalmente para próxima semana, para o próximo mês ou para quando Deus prover. Quando, na verdade, deveriam ser cumpridos como se o prazo tivesse acabado na década passada.

O desenvolvimento também está em fazer render àquele tempo que seria improdutivo, em executar trabalhos em prazos curtos e sobretudo em não deixar que a chuva ou a greve impeçam de cumprir seus compromissos e de arcar com suas responsabilidades, não porque o seu tempo seja do seu dono e senhor, mas sim porque você quer fazer por merecer o posto que você ocupa.

Da nossa capacidade de responsabilidade dependem nós mesmos e a sociedade. Quando alguém está em falta com seu compromisso, criminosos deixam de ser presos, vidas deixam de ser salvas, estudantes deixam de aprender, trabalhadores ficam impossibilitados ao trabalho.

Por isso quando estiver chovendo e o trânsito estiver engarrafado, não culpe a chuva pelos seus atrasos ou suas ausências, mas sim a sua própria mania de arranjar pretexto para mascarar sua incompetência. Enquanto isso, nós iremos culpa a besta quadrada que delegou a você uma responsabilidade, para a qual você não tem condições de cumprir.

Àqueles que já entram em campo com o placar francamente desfavorável, ou seja quem é pobre, têm que compreender que é possível melhorar de vida e que o caminho mais seguro e curto para isso é a educação. Mas é uma pena que haja pessoas que depois das primeiras frustrações larguem o osso tão
facilmente...

 

23.05.2005

 

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